O exposto do oposto a incomodava tanto que mal podia se mirar no espelho. A vida era doída, ela concluiu. Mas o que não dói não é mesmo vida? Então, considerando-se viva sofria por tudo só pra sentir que vivia um pouquinho mais que os outros. E, quando tudo apertava fazia uma careta qualquer, olhava-se no espelho, coçava o nariz feio, esfregava os dentes feios com a língua feia molhada e cuspia a gosma amarela da boca.
O espelho era limpo todos os dias na esperança do reflexo da alma, não dela, mas do próprio espelho zombeteiro. Mas isso é uma intercalação do quarto.
A vida era uma vaca preta e o estrume, as pessoas. Esse era o seu pensamento sem linha, sem cabeça, um pensamento doído, cheio de sofrimento. Não fosse pela vida sofrida, talvez preferisse não doer, não doer mesmo. Seria uma pessoa bonita e decidida com um mordomo chamado James, mas se tivesse tudo, ou seja, um mordomo, ela não teria vida porque a vida consiste na dor, no sofrimento das mocinhas feias de treze anos e com espinhas .
Posso começar por talvez. Talvez porque seja entupida de vida minha talvezidade. Mas o ocorrido fez com que eu sonhasse com ele na hora em que eu deveria sonhar em talvez casar. Enfim, melhor que fosse o sonho curioso.
Andei por alguma rua e me deparei com um gato mudo, apenas isso. Ele me olhou e vi nas suas frestas o desconhecido. A rua era estreita e esburacada; o gato também. Então, então... Então era isso, mas não tudo. O que me fez perder o sono depois do sonho foi o pensar da minha talvezidade.
Então é o contínuo da dúvida, o contínuo fugitivo para não ter que pensar só explicar sem saber. Talvez eu não soubesse de verdade, quisesse só ir por ir e ver no que daria, mas já estando ficaria imóvel deixando o vento passar. É o medo que imobiliza, e é o medo que move. O medo é sempre medo de dor, talvez seja por isso a dúvida. Fica-se imóvel. Solto num lugar nem de sim nem de não, sem dor, sem prazer, presos no momento limpo.
Vivo em débito com algum lugar. Não é fácil. E mesmo que alguém veja o sorriso cru no reflexo do vidro embaçado ainda não consigo ser sem o medo. Eu deixo meu riso estender por onde ele bem entender, no entanto ele vai como um coice de cavalo doido. Vivo em débito em algum lugar, mas paro por um segundo, dentro do minuto, dentro da hora, dentro do mundo e apenas vejo o desconhecido, pois é ele que me fascina.
Era semana santa, e não querendo forçar uma antítese, Cristina andava pela calçada escura da vida fácil. Ela nunca entendeu porque esse nome de vida fácil, pois geralmente apanhava entre um trabalho e outro. O dinheiro era suado, principalmente quando aquele macho bruto ficava tenso entre suas pernas por horas e todo o líquido quente que escorria de sua testa caia nojenta na sua boca. O suor pingando longo no vai e vem do corpo másculo era o que ela mais odiava. O pênis rijo e esfolado não a incomodava tanto quanto aquilo. Suor escorrendo devagar e caindo no seu rosto jovem.
Engraçado - ela pensava. Os homens que suavam menos eram os que pagavam melhor. Dessa forma, decidiu atender só em ar condicionado. Nada desses motéis fuleiros com cheiro de barata morta e toalha úmida mofada. Motel fino com ar condicionado era o que havia de melhor.
Quando colocou em alguns anúncios que era fina e atenderia com preço especial na semana santa inúmeros telefonemas vieram seguidos de propostas clichês.
– Quanto?
–150.
– Hmmm, com tudo?
– Não.
– Com o quê? Pode rolar um oral? No cuzinho?
–Pode sim, mas não pode pingar suor em mim.
–Hãm?
–Isso mesmo. Não ouviu? Não pode suar, senão o preço volta a ser o de costume, 250.
– Tudo bem. Você fica por cima, rebolando gostosinho. Não tem como pingar. Mas pode gozar nos peitos, no teu corpo?
– Isso pode. Então, está combinado. Eu te encontro de saia rosa, blusa preta e óculos escuros na Beira Mar.
– Até uma hora (pm).
Já eram quase 13 horas. Mais uns minutos e o cliente sairia do serviço. Ela deveria estar lá esperando. Cristina começou a passar o batom vermelho-carnaval e vestiu a saia vagarosamente, apreciando seu corpo objeto. Penteou os cabelos clareados com água oxigenada e pôs os óculos de marca. Foi buscar na geladeira um pouco de vinho e deu o primeiro gole do dia. Olhou pra mesa e viu o bacalhau cru. Sua mãe não viera. Cristina caminhou até a porta e saiu rápido sem olhar pra casa.
Meia hora depois, ela volta. Não faria o programa, pois lá fora estava tão quente, tão calorento que preferiu não arriscar o suor dos outros. O sol de uma hora era horrível.
O bacalhau foi servido ao molho branco com uma taça de vinho tinto francês, pra si mesma.
Pois todo cafajeste teu seus dias contados. E o pior, o diabo fará você pagar onde quer que esteja.
Amigas sapas, recebi inúmeras críticas da Sônia Abrão e olhares compreensivos das butches em fim de carreira durante minha fase recém fechada de calhorda da novela das 8, tipo José Meyer. Ao contrário do que todas imaginavam, não fiquei com a Camila Pitanga, nem com a Thaís Araújo, nem com a Cristiane Torlloni, tampouco com a Vera Fischer ou mesmo a Giovana Antonelli.
Decidi por outra emissora. A emissora da Betty, a feia.
Vamos abrir outra cartinha dos nossos queridos jurados... Hummm, deixa eu ver.
Embora os telespectadores da minha vida amorosa e revolucionária me arguissem sobre a quantidade de mulheres recentemente enxertadas na minha vida, eles não ficaram felizes pelo fato de eu ter escolhido apenas uma. Esta uma, apesar de menos provida da magnânima beleza da mãe natureza, foi escolhida por diversos fatores: Inteligência, caráter, talentos, simplicidade, segurança e sim, eu gosto é de butch.
Amigas Sapas, esse post é para que vocÊs entendam que vale apena investir em algo primeiramente que não seja a bunda e/ou os peitos. Mulheres não são apenas corpos sexies e deliciosos, são também coração e caráter. Sempre tive a imagem de algo mais profundo do feminino. Como diria Che: "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás." As butches não deixam de ser doces e sensíveis, são mulheres que devem ser amadas pelo que são. O feminino é lindo e não importa o frasco abarrotado. Por mais que aparentam insensíveis, as butches são as mais doces e honestas pessoas que conheço.
Por isso digo, estou encantada por pássaros vermelhos e não importam o que cochichem, sei que acabarão por gostar dela. Espero que entendam e me apóiem, pois meus dias de cafajeste acabaram.
Nesses últimos tempos, venho ensaiando ser uma grande e desprezível cafajeste. Não seria um tapa na cara de ninguém, pois todos já visualizam essa imagem em mim. Infelizmente, meu sorriso fajuto de canto de boca e minha conversa suja e inescrupulosa, altamente pervertida, somando com minha cara cínica e dissimulada, e meu precioso gosto pela bebida, resultam nessa minha efígie vulgar.
Sim. Eu tentei. Remexi o caderninho, andei de bobeira por aí, bebi nos bares mais execráveis, conversei com as mulheres mais solícitas, correspondi a olhares, respondi conversas de msn e scraps do orkut, atendi telefonemas, ousei a dançar forró, fui à boate, ao cabaré, puteiros, teatro, museu, ponches, calouradas e a toda a sorte misericordiosa do mundo.
Resultado: mulher pra cada dia da semana, com direito a até duas por dia, ou três, ou quatro. Cada uma mais diferente do que outra (magra, alta, lisa, rica, ignorante, nerd, bonita, feia, sensual, butch... ). Ai, sapas. Enfim, consegui ser a mais sacana de todas, a mais desprezível cafajeste, a mais calhorda e imbecil entre todas as butches que permeiam a face da terra.
Sei que agora nesse momento, muitas de vocês desejariam ter alguém a quem se acolher, mas a verdade não é de e para todas. Pesarosamente, em meio a tantos braços e colos, eu não quero ninguém. Se eu as iludi? Pode se dizer que sim, mas também não disse que eu buscava um relacionamento. Entorno meu copo esperando esquecer tudo: da vida, do emprego, da faculdade, da família. Estou triste com o mundo, comigo.
Eu não sei ser sacana. Não sei ser uma miserável egoísta. Afogada entre tantas mulheres de toda fortuna, mesmo assim, eu só penso nela. E ela diz por aí que quer me ver feliz. Como?
“O lugar vago ainda é dela.’’
Juro que tentei, mas meu coração ainda resiste como o último vietnamita.
Eu ando procurando cabeças. Sou agora uma caçadora de PENSAMENTOS. Não fico muito feliz com uns pensamentos gordos e pesados.Pensei que os pensamentos fossem LEVES e FÁCEIS. Geralmente, eu os encontros tristes em alguma parada de ônibus, meio cabisbaixo mesmo. O sol tenta reanimá-los, no entanto vem tão forte que quase os torram. E eles fogem, deixando os olhos vagos e sombrios. Não, os pensaMENTOS não são meus, mas poderiam ser.
Eu ainda levo a mão como se quisesse puxá-lo pela gola e lhe dar dois tapas, mas eles me invadem de olhos tristes e pesarosos e eu os deixo ir, sem saber direito o que pensar. Então, fico de pé, olhando se esvair na esquina e brilhar numa nuvem branca e gorda. O sol tenta me reanimar, mas ele é tão vermelho que dói na cabeça. Descubro que tenho cabeça; e, me pergunto, por que diabos eu nunca a tinha achado.
Amor, confluência de pensamentos não são direcionados para seu umbigo. Sei que o seu é o mais belo umbigo de todo o país, ou melhor, de todo o ocidente, mas não devemos pensar que tudo é por causa do seu. Poderia vir de alguma puta triste de esquina.
Amor, aquela estrela não está ali somente para combinar com seus cabelos. Sim, eu sei que eles são sedosos e lisos, mas nem todo cabelo vem do ovo chocado, vem do estrume de boi com pitada de ceramidas.
Da fogueira não restou muita coisa, apenas lágrimas e cinzas.
Ainda consigo recordar os olhos vermelhos e a pá pintada de fuligem, de tudo como se fosse ontem. Lembro em especial dela que soluçava baixinho no seu canto, jogando fora alguns mimos da carteira de butch. A imagem toda era laranja com as bordas velhas e gastas, talvez igual a seu coração, abarrotado e batidinha nas costas.
Sapa é assim mesmo, chora igual criança quando dói perto da alma. Ela, eu nunca tinha visto tão inconsolável, pois choramingar já era clássico pelo corredor das sem-palavras. Pensar que tão longe e ainda lá.
Belém tinha feito conexões.
Cada uma mandava um telegramazinho vagabundo, bem como nosso orgulho ou o que restava dele ,para diversas partes do país. Diana no seu lindo vestido vermelho andava por Manaus. Angelina tinha o coração bêbado e até tentou queimar o celular pelos arredores de Paraopebas. Fernandes mandou um telegrama para o inferno, pois somente de lá poderia vir os escorpianos. Alguém colava fotos nas paredes como recortes de um coração murcho.
Aquela butch de violão e letra alaranjada foi a única a voltar para São Luís, voltar pra Beira-mar. Ela foi contar seu segredo pro danado do mar que teimava em refletir a lua complicada. O choro dela era uma súplica, um pedacinho do corpo, a última gota da garrafa vazia. E quando todos sumiram, ela ainda estava lá.
(Recolheu as cinzas, misturou com um pouco de lágrima, pingou uma gota de laranja e modelou sua vida boba em algum signo sofisticado de ascendente em libra).
— Isso foi um enterro! Diziam a ela. — Eu sei.
Ao chegar de viagem, ela pegou o feto abortado, fez um buraco bem grande no quintal e o enterrou com os olhos ainda cheios de lágrimas.
Depois de um tempo, as butches tinham encontrado novas razões de viver, lá pelos interiores do Maranhão. Meninas que nortearam a força existente e provaram que o coração poderia dar certo, era só acreditar no novo. E porquê acreditavam, conseguiam.
Mas numa quinta-feira de inverno, quando todo mundo já esquecia da menina laranja, eis que a própria surge acompanhada, e todas ficam boquiabertas.
—Ei, Ariana. Mas essa daí não era aquela lembrança enterrada? —É, sim. —Então, o que aconteceu? —Ah, é que choveu e ela brotou de novo no meu jardim.