terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Amor amor


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Amor, todos os pensamentos das pessoas não são direcionados para seu umbigo. Sei que o seu é o mais belo umbigo de todo o país, ou melhor, de todo o mundo, mas não devemos pensar que tudo é por causa do seu. Os pensamentos estão distribuídos corretamente entre o umbigo de cada um e as próprias dores.
Amor, aquela estrela não está ali somente para lançar luz para seus cabelos. Sim, eu sei que eles são sedosos e lisos, mas nem todo cabelo é pior do que o seu. Já vi muito pelo pubiano com mais personalidade e irrigado por pessoas melhores.
Eu só queria dizerque seu egoísmo me adoece.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Comparações


Eu falei tudo.

-Quase, quase... Seu verde é musgo de piscina pública.
-Hãm?

Ela não entendeu nada.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A fogueira da Orange Butch


Da fogueira não restou muita coisa, apenas lágrimas e cinzas.

Ainda consigo recordar os olhos vermelhos e a pá pintada de fuligem, de tudo como se fosse ontem. Lembro em especial dela que soluçava baixinho no seu canto, jogando fora alguns mimos da carteira de butch. A imagem toda era laranja com as bordas velhas e gastas, talvez igual a seu coração, abarrotado e batidinha nas costas.

Sapa é assim mesmo, chora igual criança quando dói perto da alma. Ela, eu nunca tinha visto tão inconsolável, pois choramingar já era clássico pelo corredor das sem-palavras. Pensar que tão longe e ainda lá.

Belém tinha feito conexões.

Cada uma mandava um telegramazinho vagabundo, bem como nosso orgulho ou o que restava dele ,para diversas partes do país. Diana no seu lindo vestido vermelho andava por Manaus. Angelina tinha o coração bêbado e até tentou queimar o celular pelos arredores de Paraopebas. Fernandes mandou um telegrama para o inferno, pois somente de lá poderia vir os escorpianos. Alguém colava fotos nas paredes como recortes de um coração murcho.

Aquela butch de violão e letra alaranjada foi a única a voltar para São Luís, voltar pra Beira-mar. Ela foi contar seu segredo pro danado do mar que teimava em refletir a lua complicada. O choro dela era uma súplica, um pedacinho do corpo, a última gota da garrafa vazia. E quando todos sumiram, ela ainda estava lá.

(Recolheu as cinzas, misturou com um pouco de lágrima, pingou uma gota de laranja e modelou sua vida boba em algum signo sofisticado de ascendente em libra).

— Isso foi um enterro! Diziam a ela.
— Eu sei.

Ao chegar de viagem, ela pegou o feto abortado, fez um buraco bem grande no quintal e o enterrou com os olhos ainda cheios de lágrimas.

Depois de um tempo, as butches tinham encontrado novas razões de viver, lá pelos interiores do Maranhão. Meninas que nortearam a força existente e provaram que o coração poderia dar certo, era só acreditar no novo. E porquê acreditavam, conseguiam.

Mas numa quinta-feira de inverno, quando todo mundo já esquecia da menina laranja, eis que a própria surge acompanhada, e todas ficam boquiabertas.

—Ei, Ariana. Mas essa daí não era aquela lembrança enterrada?
—É, sim.
—Então, o que aconteceu?
—Ah, é que choveu e ela brotou de novo no meu jardim.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

OU


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A dúvida é o meu norte, minha alternativa. De silêncio eu não faço tanta questão, desde que esteja dentro da minha cabeça. Mas é o sim ou o não que me inquieta, ou o ou com outro ou e até o esse ou aquele. Ah, como eu queria dizer E ou COM, ou MAIS, ou quem sabe TUDO. A mulher da soverteria perguntaria “senhora, você quer chocolate ou morango?” Eu diria bem grande um ou outro, os dois ou nenhum, ou quem sabe uma bola de chocolate mais outra de morango. Nem nessa suposição boba eu sei decidir.
É melhor chocolate ou morango?
Dúvida.
O e U, são as últimas vogais e as que mais me fazem suar. Ah, se eu soubesse que eram tão maliciosas essas pestinhas. Duas letrinhas do capeta. Ou não.

Lama

Era manhã de inverno, por volta das seis horas.
Eu não sei onde doeu, mas doeu.
Caiu lentamente como uma vaca em slow-motion dando um duplo carpado twist, tentando pegar sei lá o que. Aquela queda linda não era poesia, era queda mesmo. Dessas que a gente aperta os olhos, imaginando a dor. Embora ela não tivesse chorado, fui socorrê-la.
—Doeu?
—Não.
—Nem um pouquinho?
—Já disse que não.
—Deixa eu te ajudar a levantar, tá fazendo frio?
—Não precisa. Gosto de banhar na lama. É saudável.
—Você tem certeza?
—Não vê que estou passando essa deliciosa lama na minha cútis?
—Isso vai fazer mal.
—Se fizesse mal, eu não a comeria.
—Você não vai fazer ISSO...
—Olhe, olhe... Hmmm! Ela apanhou um punhado de lama com as duas mãos e derramou na boca aberta.
—Meu Deus! Que nojo, sua porca.
—Porca é você, sua vadia.
—Idiota!
—Vadia de 15 centavos.
Acertei com toda a força meu pé no nariz sujo de lama daquela moça idiota e corri com medo de apanhar. Procurei uma casa de jardim robusto e me escondi ofegante. Fiquei um minuto exato, olhando pra ponta do meu tênis sujo de sangue. Parei, olhei para o caminho que fiz e ri, simplesmente ri.
(risos)
Ela era gorda.